05/08/2006
Com um atraso de uns 20 anos, o escritor Marcos Tavares, 49 anos, nascido numa antiga casa de pedra, na Vila Rubim, em Vitória, e hoje radicado em Guaçuí, por insistência de amigos ora traz à lume a edição de seus antológicos poemas, no livro "GEMAGEM", publicado através da Lei Rubem Braga. Enquanto contista, em 1987 publicara o livro "No Escuro, Armados", que veio a conquistar a admiração de críticos de renome e de exigentes leitores. "Entre os muitos que escrevem por aqui (...), salvam-se tão poucos, com domínio de técnicas de linguagem, com algum conhecimento da língua, com realmente algo a dizer. Marcos Tavares é um deles.", escreveu a jornalista Sandra Aguiar sobre "No Escuro, Armados", em A GAZETA, Caderno Dois, 23-07-1987.
Por analogias fonéticas e semânticas, a palavra gemagem nos lembra: gemação, gema, gen, genética, gênio, engenharia. E tudo isso está presente nos poemas deste livro. Chama-se gemagem o processo pelo qual se retira dos vegetais a resina, ou o látex. E gemação é o processo de formação de gemas nos três reinos da natureza: animal (ovo), mineral (pedras) e vegetal (brotos). Com este título o autor alude à produção de suas jóias poéticas, do ovo de ouro, da pedra filosofal, em suas retortas operações verbais, alquímicas, matemáticas. Marcos burila palavras, fá-las gemas gemidas, germinadas nas minas da alma, qual pedras viventes, jóias da língua. O título do livro vincula-se ao poema "Gema Gemido" (dedicado a Oscar Gama, outro poeta, cujo sobrenome serviu de mote a essa jogada criativa).
Como bem o demonstram os avançados estudos científicos, a Natureza obedece a um plano matemático na construção de formas nos reinos mineral, vegetal e animal, que revela uma ordem cósmica: padrões de simetria e harmonia assombrosos, tanto em níveis macro quanto micro. Demiurgo, o poeta cria seres de linguagem em que aparecem esses sinais da arquitetura divina.Diálogo. Escritos entre 1976 e 1984, uns já publicados nas revistas capixabas Letra e Ímã, outros premiados em concursos literários daqui, e alguns inéditos, os poemas de "GEMAGEM" revelam um poeta consciente e atento às ideologias políticas e estéticas. Daí que a maioria dos poemas é construída segundo os padrões formais da poesia concreta, do poema processo, do poema práxis, da arte engajada, da literatura popular e erudita. Ou seja: ciente de que está numa aldeia global, Marcos dialoga com várias correntes da poesia brasileira.
Nessa linha da relação dialética com outras vozes estão os poemas intertextuais, em que o poeta dialoga com os seus pares, através de paródias, da apropriação, da mímese estilística à Drumonnd e à Cabral, de concretistas, de praxistas, de autores anônimos da literatura popular, do folclore (formas simples), exibindo seus dotes camaleônicos. O poeta é um fingidor? Melhor, o poeta é um ator que se desdobra em "trezentos e cinqüenta" eus e outros em constantes assembléias e diálogos. Por isso, dos 50 poemas de GEMAGEM, 17 são intertextuais e metalingüísticos.
Nos poemas metalingüísticos o poeta nos apresenta a sua poética, e diz o que pensa de sua arte, seus instrumentos e limitações. Confiram-se: "Da isenção do instante" (p. 25), "Do linguajar das pedras" (p. 48), "Poetílico"(p.50), "Canto outra vez adiado" (p.53-55), "Mundo versus palavras" (p. 82), "Saudação à ave que passará" (p. 86), "Do desencanto do poemador" (p. 87) – este, sintomaticamente, o último poema.
Ciência e arte. Embora o pai o quisesse engenheiro, e sendo esportista e ex-estudante de Matemática e de Economia, na Ufes, o poeta incorporou em seus poemas a disciplina, as harmonias, a construção verbal, a condensação, o exercício formal, a reflexão social. Observem-se, por exemplo, as simetrias e os detalhes formais presentes no título Gemagem e no poema "Gema gemido" (tanto na forma do poema, quanto no verso "a bala abala a rara arara" – onde se pode notar desde o impacto do projétil, representado pelo som da letra b, até a própria bala, representada pela letra a atravessando o verso de um lado ao outro). Seria fantasioso demais observar que o título Gemagem é a combinação de 4 letras (o tetragrama G-E-M-A), que lembram as bases químicas (o tetragrama A-C-G-T ), e que "Gema gemido", poema nuclear do livro possui 23 pares de versos (lembrando os cromossomos)? Em tempos de decifração de um possível Código DaVinci, tudo é possível.
Nesse poema, que alude ao título, o assunto é a morte de uma ave ("rara arara"), que é clara metáfora do poeta. É interessante observar como o "poemador" (MT prefere assim) vincula essas imagens e se identifica com as aves, almas penosas neste mundo ímpio, avoado, nos poemas "Visita do anjo" (p.60-61 ), "Saudação à ave que passará" (p. 86), "Gema gemido"(p. 21-22), "Da metafísica do ovo e da galinha" (p.23-24 ), todos metaforizando a figura e a situação do poeta, "potencial marginalizado numa sociedade materialista e consumista", conforme diz MT no Prefácio. Isso nos remete à velha discussão sobre a função ou utilidade da poesia, o desprezo burguês aos poetas, e também a linguagem dos pássaros, ou anjos, ou deuses. Que, no final da conta, é a poesia.
Contexto. No seu prefácio intitulado "Ruminações ao redor do ovo", Tavares nos informa sobre o contexto de sua escritura, e cita um caso de patrulhamento ideológico que sofreu. Também revela seu relacionamento com quase todos os nomes expressivos da literatura daqueles anos: sobretudo Oscar Gama e Miguel Marvilla (do grupo Letra), Fernando Tatagiba, o autor deste artigo, Gilson Soares, Deny Gomes e os adeptos de oficina literária, Paulo Sodré, Francisco Grijó, Adilson Villaça, Alvarito Mendes, Benilson Pereira etc.
Por força de sua consciência ética, de sua luta pela dignidade humana, MT aborda temas de interesse social, alguns recorrentes, tais como: violência, guerra, militarismo, arbítrio, destruição, morte, ecologia; negritude; religião; trabalho; vício; amor erótico e fraterno, incluindo poemas homoeróticos.
Num momento em que muitos poetas bandearam para o verso fácil, quase fala em estado bruto (referimo-nos à poesia marginal) e outros refugiaram-se no formalismo estéril, ele aprofundou-se na pesquisa de forma e de conteúdo, sem abrir mão da inteligibilidade. Tornou-se, sem alarde, não apenas um poeta do seu tempo, mas também contra o seu tempo.Conclusão. A recorrência de temas, motivos, abordagens, imagens, técnicas e recursos dá uma coerência e equilíbrio ao conjunto dos poemas, revelando um plano de construção, uma intencionalidade, um pensamento pautado numa ética e num projeto de vida em que sobressaem justiça e dignidade.
Marcos Tavares dá uma bela lição de competência e talento, de largueza de espírito, de consciência da aliança entre arte e vida, entre ética e estética. Por isso, recomendo a leitura não só dos poemas mas também do dito prefácio e dos aspectos biográficos do autor em foco.Waldo Motta é autor de "Eis o Homem", "Poiezen", "Bundo" e "Recanto",entre outros.
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